De acordo com vertentes da sabedoria budista, ao contemplar a realidade de um ponto de vista elevado (ou profundo), percebemos que noções de bem e mal, certo e errado perdem sentido. A mesma linha de pensamento nos diz, entretanto, que, em muitas situações da vida diária, nossas escolhas e atos devem ser enxergados por meio de “enquadramentos” parciais e específicos, dentro dos quais esses dualismos são, frequentemente, inescapáveis.

Ao tratar do exercício legítimo de uma profissão, devemos nos ater a seus parâmetros de enquadramento sociocultural.

A concepção do jornalismo como atividade de vital interesse público se sustenta em ideias e valores-chave – como “imparcialidade”, “objetividade” e até mesmo a noção de “fato” como fragmento da realidade empírica que confere veracidade à notícia –, os quais, por diversos motivos, vêm sofrendo um processo de depreciação.

Vou me ater aqui à questão da “imparcialidade”, aceitando o termo pelo seu “valor de face”, de acordo com a acepção mais comum e corrente. Jornalismo imparcial, sob essa ótica, é fundamentalmente aquele que produz noticiário não alinhado com grupos de interesse nem com correntes ideológicas específicas.

No campo dos debates intelectuais e acadêmicos – que repercutem na sociedade em geral e na formação de novos jornalistas em particular –, evocam-se condicionamentos históricos, culturais e linguísticos, variáveis psíquicas e psicológicas, questionamentos lógicos e filosóficos diante dos quais relatos que se pretendem imparciais só podem merecer a qualificação de ilusão ou falácia.

Jornalismo militante
No mercado do jornalismo, sobretudo na chamada “grande imprensa”, empresas de comunicação e veículos de notícias costumam repetir o bordão da imparcialidade mesmo quando, na prática, não buscam esse ideal e se comportam como porta-vozes de grupos e interesses particulares.

Exemplos desse tipo de jornalismo partidário não faltam. Entre as potências do cenário midiático internacional, o canal de TV Fox News, por exemplo, que pauta e interpreta os acontecimentos de acordo com a visão de mundo dos grupos mais à direita no espectro ideológico americano.

No jornalismo televisivo brasileiro, a Bandeirantes vem se destacando por trilhar um caminho semelhante, de parcialidade desabrida, ao tratar questões de grande relevância política e social. Ao negar o aquecimento global como fenômeno ameaçador causado pela atividade humana, defender a posição dos chamados “ruralistas” no tocante ao Novo Código Florestal e encampar a causa da redução da maioridade penal, por exemplo, a Band tem abordado esses importantes debates como se não houvesse legítimos pontos de vista divergentes, sobre os quais seus espectadores também deveriam ser esclarecidos para fazer seus próprios julgamentos.

Em favor desse tipo de jornalismo

claramente militante pode-se argumentar que se trata de um gênero menos hipócrita, mais franco, em relação à prática dominante na grande imprensa, na qual o partidarismo costuma ser menos explícito. Mas não devemos perder de vista que a possível vantagem da franqueza perde valor no caso de discursos autoritários que simplesmente ignoram ou distorcem visões divergentes.

Há quem defenda que melhor seria cada veículo assumir seus partidarismos, admitindo que eles não se expressam apenas nos editoriais, espaços reservados para a opinião dos proprietários, mas também no noticiário. Por esse raciocínio, uma imprensa que abrisse mão da “mentira da imparcialidade” seria mais honesta, transparente, e, num cenário midiático marcado pela pluralidade de interesses, ideologias e proprietários (algo distante da realidade brasileira contemporânea, diga-se), satisfatoriamente democrática.

Não há dúvida de que os partidarismos não podem nem devem ser erradicados dos veículos jornalísticos, e que o melhor é assumi-los. Também é certo que a liberdade de expressão e opinião são valores democráticos imprescindíveis, que, para ter efetividade, requerem um pluralismo midiático capaz de refletir a multiplicidade de visões existente na sociedade. Mas nada disso anula ou reduz a importância da imparcialidade como valor norteador de uma parte essencial da prática e da produção jornalísticas.

Praça pública midiática
Um dos melhores exemplos de prática jornalística comprometida com o ideal da imparcialidade, aquela que busca apresentar dissensos e conflitos dando espaço e voz a legítimos representantes dos diversos pontos de vista e interesses envolvidos, é o da BBC.

Ao identificar no jornalismo da BBC um exemplo de busca bastante bem-sucedida de imparcialidade não quero dizer, absolutamente, que a tradicional empresa pública de comunicação britânica supere seu próprio contexto. O sucesso relativo ao qual faço alusão tem como referência necessária a sociedade e a cultura britânicas, que, por mais multifacetadas que sejam, estão longe de representar uma síntese da humanidade.

A imparcialidade da BBC é fundamentalmente britânica. Mesmo assim, os princípios e métodos que a empresa e grande parte de seus jornalistas empregam para atingir esse ideal são reconhecidos por telespectadores mundo afora. E, apesar das limitações decorrentes de seu “enquadramento britânico”, a BBC é vista internacionalmente como uma das fontes de informações jornalísticas mais confiáveis do planeta.

As razões desse prestígio são várias. Entre elas, destaca-se o fato de, especialmente por ser uma entidade pública, a BBC é constantemente avaliada, criticada e cobrada em relação a seus compromissos, no centro dos quais se encontra a imparcialidade na produção e veiculação de notícias.

As limitações da imparcialidade da BBC não dizem respeito apenas a pontos de vista externos ao contexto britânico. Pesquisas de opinião revelam que os

próprios cidadãos do Reino Unido, que bancam, por meio do pagamento de taxas, a maior parte do orçamento da BBC, identificam muitos desequilíbrios na sua cobertura. Mas isso não os impede de considerar, em sua grande maioria, a BBC como a fonte mais imparcial e confiável de notícias. Isso num universo social em que 92% da população acredita que o jornalismo deve manter seu compromisso com a imparcialidade, inclusive ao cobrir guerras nas quais tropas britânicas estejam envolvidas (segundo pesquisa realizada em 2006 e divulgada pelo Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo).

O fato de sempre haver um razoável grau de insatisfação quanto à imparcialidade do seu jornalismo não desvaloriza nem prejudica a BBC. Seu compromisso com a imparcialidade só pode ser efetivo se for constantemente cobrado e questionado. Sem essas pressões não haveria suficiente autocrítica nem as decorrentes correções de rumo.

Veículos jornalísticos cujo compromisso com a imparcialidade é reconhecido e cobrado pelo público espectador, ouvinte ou leitor funcionam como instituição democrática que reforça a legitimidade do chamado “quarto poder”. Espécie de “praças públicas midiáticas”, veículos com esse perfil configuram espaços privilegiados de mediação social, nos quais o diálogo entre diferentes vozes propicia a construção democrática de consensos. Algo que a mera pluralidade de visões parciais e partidárias não garante, pois ela, ao contrário, tende a segmentar o público em grupos mais homogêneos em matéria de opinião, gosto e condição socioeconômica.

Compromisso e condições
Respondo, então, à pergunta feita no título deste artigo. Não existe jornalismo 100% imparcial, assim como, por exemplo, não há ciência puramente objetiva nem sentença jurídica completamente isenta de subjetividade. A constatação de que a própria condição humana implica pontos de vista relativos, entretanto, não invalida a busca da máxima imparcialidade possível nem diminui o grande valor social do trabalho comprometido com esse ideal.

A imparcialidade jornalística, conforme a compreendo, pressupõe uma visão relativística, que busca e contempla diversas visões dos fatos, mas também se apoia em objetividade factual que esclarece – e frequentemente delimita – o campo das divergências legítimas. Algo bem diferente de um relativismo que, de saída, rejeita a ideia de verdade factual e vê qualquer relato jornalístico como inescapavelmente partidário.

Sob influência de visões relativísticas simplistas, inspiradas por um ideário chamado “pós-moderno”, e diante dos obstáculos impostos por um mercado midiático concentrado em poucas mãos privadas, os jornalistas em atividade no Brasil não têm sido muito estimulados a empreender a trabalhosa busca da imparcialidade.

  • Jornalista e consultor de comunicação, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.