Ao se apresentar no TED – Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser disseminadas), provavelmente o site de palestras mais conhecido do planeta, Ivan Krastev mostrou ter senso de humor. Sempre com expressão séria, definiu-se como alguém que “você espera não encontrar no TED”. Conferências criadas sob influência de empreendedores do Vale do Silício, nos Estados Unidos, os encontros do TED reúnem um público que paga caro para assistir a palestras sobre ideias inovadoras, frequentemente ligadas à revolução digital e à chamada “cibercultura”.

“Não tenho telefone celular… E sou búlgaro”, disse o cientista social, diretor do Centro para Estratégias Liberais, sediado em Sófia, e apontado como um dos cem intelectuais mais importantes da atualidade pelas revistas Foreign Policy e Prospect. “E os búlgaros estão entre os povos mais pessimistas do mundo”, prosseguiu Krastev, citando o título de uma reportagem sobre índices de felicidade publicada em outra revista de grande prestígio internacional, a The Economist: “Os felizes, os infelizes e os búlgaros”.

Depois dessa promissora apresentação, o palestrante resumiu outra característica que o diferenciava do espírito dominante da sua plateia. “Vocês do TED são muito otimistas. Basicamente, vocês acreditam em complexidade, mas não em ambiguidade.” E a percepção da ambiguidade é, de fato, essencial no pensamento de Krastev, algo que fica evidente em sua fala no TED, sobre a atual crise das democracias e a crença de que o movimento pela transparência pode restaurar a confiança das pessoas na política.

Krastev começou falando sobre “o que deu certo” nas últimas décadas. Sua lista de sucessos de ampla repercussão inclui a revolução cultural representada pelas manifestações de 1968, a “revolução do mercado” (que também poderia ser chamada de ascensão do neoliberalismo), o fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, a revolução digital e o boom das neurociências. É de conhecimento geral o avanço das liberdades individuais, dos prazeres do consumo, do conhecimento científico e das possibilidades de comunicação e de acesso a informação propiciado no contexto desses processos de impacto global. Mas, na interpretação de Krastev, esses mesmos acontecimentos e fenômenos compõem a relação do que vem “dando errado” na contemporaneidade.

Excesso de individualismo, novas formas de manipulação das emoções, fortalecimento de “guetos virtuais” onde os diferentes não têm lugar compõem um cenário no qual os grandes movimentos e projetos coletivos não são mais definidos pelo conteúdo nem propriamente por ideias, mas pelas tecnologias e mídias que as impulsionam (como a revolução digital, da internet, das redes sociais…).

Ao mesmo tempo, com o fim da “ameaça comunista”, as elites econômicas deixaram de depender de uma aliança com o povo e ficaram livres para buscar uma concentração ilimitada de riqueza e poder. Fenômeno que, segundo Krastev, resultou numa mudança de uma importante tendência histórica. Até pouco tempo atrás, o desenvolvimento das democracias e a redução das desigualdades andavam juntas: quanto mais liberdade os cidadãos conquistavam, menos desigual economicamente tornava-se a sociedade. Uma relação que, segundo ele, já foi claramente rompida em grande parte do mundo.

Nesse contexto econômico e cultural, não é surpreendente que a crença em grandes projetos coletivos e a participação política estejam O governo búlgaro decidiu que as discussões do conselho de ministros seriam publicadas pela internet. O resultado tem sido que discordâncias necessárias vêm desaparecendo das deliberações 4em declínio. Nos últimos 30 anos, Krastev informa em sua palestra, levantamentos feitos mundo afora mostram uma queda constante da participação popular em eleições democráticas.

Gerentes da desconfiança
Ivan Krastev não nega a necessidade de transparência e prestação de contas por parte de quem exerce o poder. Lembra, inclusive, que a democracia moderna foi construída com pesos e contrapesos, sistemas institucionais feitos para evitar excessos e desmandos por parte dos representantes do povo e dos órgãos do Estado. Mas alerta para os riscos do atual “culto à transparência”, que a posiciona, juntamente com a noção de accountability, como principal valor a legitimar a atividade política e solução salvadora para restaurar a confiança na democracia.

Ao entronizar a transparência como principal ideal democrático, sustenta Krastev, estamos reduzindo a política a um “gerenciamento da desconfiança”. Uma atitude que, por trás da aparente luminosidade, difunde uma compreensão sombria da política, potencialmente inibidora da criação coletiva de novas realidades sociais.

Em seu TED Talk, um vídeo de 14 minutos disponível na internet desde o final de agosto, Krastev lembra que o ideal da transparência total é também ingênuo. Toda transparência é seletiva, diz ele. Quando se ilumina qualquer coisa, resta sempre algo à sombra.

Nesta entrevista, concedida por email ao editor de [em] Revista, Flavio Lobo, Krastev jogou mais luz sobre as armadilhas de um culto à transparência que pretenda substituir a luz criadora de causas, ideias e sonhos maiores, que devem nortear a prática política.

[em] Revista: O senhor concluiu seu TED Talk citando Goethe: “Onde há muita luz, maior a sombra”. Seria correto entender que, considerando-se a escuridão produzida pelo atual culto à transparência e accountability, o senhor faz um alerta sobre o potencial fascista de uma ideologia tida como democrática?

Ivan Krastev: Não sou um guerreiro antitransparência. Pelo contrário, vejo muitos elementos positivos na luta para tornar a sociedade mais transparente. O que me causa ceticismo é a crença crescente de que a transparência é a pílula mágica que restaurará nossa confiança na democracia.

No fim do século XVIII, o filósofo inglês Jeremy Bentham desenhou um tipo de modelo institucional chamado “Panóptico”. A essência do modelo era permitir que um único observador enxergasse todas as pessoas presentes na instituição – fosse uma prisão, uma escola ou um hospital, por exemplo – sem que elas fossem capazes de saber se estavam ou não sendo observadas. De certa forma, o propalado “movimento pela transparência” visa a organizar a sociedade segundo um princípio panóptico invertido, pelo qual não é o governo que vai monitorar a sociedade, mas a sociedade que monitorará as pessoas que estão no poder. A promessa da transparência, então, é organizar a sociedade de acordo com um modelo no qual o governo é totalmente transparente à observação das pessoas, mas em que as pessoas continuam a desfrutar de sua privacidade.

O movimento pela transparência é o mais conhecido e poderoso esforço para revitalizar uma forma de democracia na qual O movimento pela transparência contribui para a despolitização da sociedade no momento em que faz da desconfiança em relação à política o principal motivo de decepção com a democracia 5os eleitores podem manter os políticos sob o permanente escrutínio da prestação de contas aos cidadãos. A esperança é que, com a combinação de novas tecnologias, dados publicamente acessíveis e um novo ativismo cívico, as pessoas podem controlar mais efetivamente seus representantes. Mas quão realista é essa esperança?

Na minha visão, é extremamente importante olhar para algumas das consequências não intencionais da busca pela transparência absoluta.

Meu primeiro argumento é que a transparência do governo virá ao custo da privacidade dos cidadãos. Você se lembra do caloroso debate sobre a decisão do WikiLeaks de publicar mensagens diplomáticas do Departamento de Estado dos EUA, em sua forma original, e o risco que essa decisão criou para ativistas de direitos humanos em países autoritários? Esse é um dos muitos exemplos de que a transparência dos governos só é possível se estivermos dispostos a pôr em jogo a privacidade dos cidadãos. Mas, enquanto esse aspecto da controvérsia sobre a transparência é muito discutida, raramente se discute a ameaça que o imperativo da transparência representa em relação à própria natureza da “democracia como a conhecemos”.

[em] Revista: O senhor poderia dar exemplos de efeitos danosos à democracia da atual busca pela máxima transparência no âmbito do Poder Público?

Ivan Krastev: Darei alguns exemplos. Há três anos o novo governo búlgaro, sob o aplauso das organizações da sociedade civil, decidiu que as discussões do conselho de ministros seriam publicadas pela internet 48 horas depois do fim de cada reunião. O resultado tem sido que muitas discordâncias necessárias têm desaparecido das deliberações governamentais. As reuniões de cúpula passaram a funcionar como uma espécie de blog do primeiro-ministro, enquanto as verdadeiras discussões de governo foram deslocadas para a intimidade velada de encontros com ministros selecionados pelo líder do Executivo. Se antes alguns ministros ousavam discordar de certas decisões, agora, cientes de que qualquer dissenso importante afetará a popularidade do governo, optam por ficar calados.

Cabe também observar que, na “era da transparência”, a popularidade das teorias conspiratórias está em ascensão. Considero que o imperativo da transparência, não intencionalmente, alimenta teorias conspiratórias em vez de contê-las. Ele privilegia fatos revelados por cidadãos em relação às posições apresentadas pelos políticos. Imagine, por exemplo, que um congressista americano tem apoiado, durante anos, aumentos no orçamento da Defesa, mas foi revelado que ele recebeu uma contribuição financeira de um fornecedor do Pentágono em sua última campanha eleitoral. O paradigma da transparência tende a ignorar as preferências ideológicas e a reduzir a posição do congressista à contribuição que ele recebeu. É fato que, comumente, o dinheiro fala alto e tende a “dizer a verdade”, mas na política não é só o dinheiro que “fala”. A criminalização da classe política – a “desconfiança democrática” – contribui para uma seleção negativa das elites políticas. Membros da comunidade mais dotados de talento e espírito público sentemse enojados com a política e evitam envolver-se com ela.

Vou dar mais um exemplo da natureza complexa da opção pela transparência nas democracias. Transparência é vital para revelar mentiras dos políticos, mas traz o risco de igualar qualquer mudança de opinião a oportunismo. Uma evidência de como a busca pela transparência absoluta pode ameaçar as próprias bases da democracia é a existência de novo software que nos permite monitorar qualquer mudança de posição de um político em relação a certas questões. O problema dessa ferramenta é que ela tende a reforçar a ideia de que a consistência é a característica mais valiosa do comportamento de um político. Sua premissa implícita é que o político mais merecedor de confiança é o que nunca muda de opinião. Mas a democracia é um regime no qual, pelo menos em tese, políticos e eleitores são encorajados a mudar sua visão quando a situação muda ou quando novas informações tornam-se disponíveis.

Resumidamente, o movimento pela transparência contribui para a despolitização da sociedade no momento em que faz da A criminalização da classe política contribui para uma seleção negativa, pois os mais dotados de talento e espírito público sentem-se enojados com a política e evitam envolver-se com ela 6desconfiança em relação à política o principal motivo de decepção dos cidadãos com a democracia.

[em] Revista: O senhor alerta para o fato de que estamos aceitando a desconfiança como fundamento da sociedade e lidando com a política como se ela fosse principalmente um gerenciamento dessa desconfiança. Influentes entusiastas da chamada “revolução digital” dizem, entretanto, que as novas formas de comunicação e relacionamento propiciadas pelas novas mídias promovem uma expansão da confiança – o que seria um requisito essencial para a formação do “capital social”. O senhor vê essa percepção de uma expansão da confiança viabilizada pelas mídias digitais como uma ilusão ou seria aspecto legítimo de um processo histórico ambíguo?

Ivan Krastev: Sou um dos que acreditam que a “revolução digital” transformou a ideia de comunidade política. E, de certo modo, ela expande a confiança. Mas, de maneira geral, a revolução digital é mais bem-sucedida na criação de “conexões fracas”. Os compromissos gerados no ciberespaço tendem a ser mais frágeis que os da “política normal”.

Muitos tentaram usar as recentes revoluções árabes como um argumento em favor do potencial político das comunidades digitais, mas, na minha visão, é a própria evolução dessas revoluções que melhor demonstra que as novas mídias sociais criaram muito potencial de mobilização, mas não podem substituir as organizações políticas. Você pode “tuitar” uma revolução, mas não pode “tuitar” uma transição

Ainda mais importante é que as novas mídias sociais, como o mercado e a democracia, são agentes de fragmentação. Elas “empoderam” as pessoas no âmbito de redes formadas por gente que pensa de forma semelhante. Nesse sentido, a revolução digital provavelmente não expande realmente a nossa confiança em relação a gente diferente de nós.

O culto à transparência pode ser um instrumento para fazer os políticos prestarem contas aos cidadãos, mas pode também causar despolitização do processo de elaboração e aplicação de políticas públicas. O fato de uma decisão ser transparente não garante que ela atenda ao interesse público.

Hoje vivemos em um mundo onde a competição entre partidos políticos é menos marcada pelas promessas e mais pelas desculpas que eles pedem aos cidadãos. Na atual crise financeira, os governos especializaram-se em explicar o que não podem fazer. “Não há alternativa” é o tema mais comum. A única diferença é que, enquanto na União Europeia, por exemplo, a ideia é de que não existem alternativas públicas plausíveis – e, portanto, as regras da gestão econômica devem ser fixadas e impostas por lei, pela constituição da UE –, em países como a Rússia e a China a ideia é de que não há alternativa política.

Dizendo de outra forma, na Europa os cidadãos podem mudar governos, mas não as políticas econômicas, enquanto na Rússia e na China os governos são mais flexíveis em relação às políticas econômicas, mas os cidadãos não podem substituir as pessoas que estão no poder. Nesse sentido, a meu ver, o movimento pela transparência de certa forma aceita a falta de alternativas.

[em] Revista: A situação de países com um passado ditatorial recente, como a Bulgária e o Brasil, onde os clamores por transparência e prestação de contas podem se referir também a fatos e episódios históricos – incluindo sérias violações de direitos humanos – ocultados ou distorcidos por regimes autoritários, demandaria uma modulação especial das críticas expostas em seu Ted Talk?

Ivan Krastev: Tornar o passado transparente é uma das esperanças de toda sociedade pós-totalitária ou pós-ditatorial. Sou completamente a favor da abertura dos arquivos. Ao mesmo tempo, o que frequentemente falta na nossa forma de lidar com o passado é um esforço genuíno de reconstrução dos contextos. Em resumo, a busca pelos sentidos da história é algo muito mais complexo do que simplesmente “aprender as lições da história”.